Restrições às bets podem mudar contratos de famosos e influenciadores em 2026
Bianca Lorvani
7 min de leitura
Projeto aprovado no Senado amplia limites para publicidade de apostas e pode transformar uma das principais fontes de patrocínio do entretenimento digital.
A publicidade de bets pode estar prestes a passar por uma mudança importante no Brasil, com reflexos diretos sobre famosos, artistas e influenciadores digitais. Na quarta-feira (2), a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou o PL 2.470/2026, que amplia as restrições à publicidade e ao patrocínio de apostas de quota fixa e jogos on-line. O texto ainda precisa avançar no Congresso, portanto não representa uma proibição já em vigor, mas sinaliza uma possível transformação relevante no mercado de publicidade digital. (Senado Federal)
O assunto interessa especialmente ao universo do entretenimento porque artistas, celebridades da internet, atletas e criadores de conteúdo passaram a ocupar um espaço importante nas campanhas de casas de apostas. A proposta analisada pelos senadores prevê restrições que alcançam redes sociais, plataformas de vídeo, podcasts, sites, aplicativos e outras formas de comunicação, além de atingir patrocínios envolvendo artistas e influenciadores. (Senado Federal)
Na prática, uma eventual aprovação pode obrigar agências, marcas e personalidades a rever contratos, campanhas e modelos de monetização. Para o público que acompanha famosos, a mudança também pode alterar o tipo de publicidade encontrada no Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas. Por isso, mais do que uma discussão sobre apostas, o projeto coloca em evidência uma questão maior: até onde vai a responsabilidade de uma celebridade quando sua imagem é utilizada para promover um produto de alto risco?
Por que o projeto das bets preocupa o mercado de influenciadores?
O ponto de maior impacto para o entretenimento está justamente na abrangência da proposta. O texto aprovado pela CCT prevê a proibição de comunicação mercadológica de apostas em diversos meios, incluindo televisão, streaming, podcasts, redes sociais, plataformas de vídeo, sites, blogs e buscadores. A proposta também alcança conteúdos de afiliados, tipsters e outros intermediários remunerados pela divulgação comercial. (Senado Federal)
Para influenciadores, isso significa que uma eventual mudança legislativa pode atingir um modelo de negócio que combina audiência, publicidade e associação direta entre personalidade e marca. Diferentemente de um anúncio tradicional, campanhas realizadas por criadores costumam aparecer integradas à rotina do conteúdo, seja em vídeos, transmissões ao vivo, stories ou publicações patrocinadas. O projeto tenta justamente ampliar o alcance das restrições para evitar que a publicidade simplesmente migre para formatos menos tradicionais.
Outro ponto relevante é que a proposta não trata apenas de publicidade convencional. O texto prevê também a proibição de patrocínios envolvendo influenciadores digitais, atletas, artistas e celebridades, além de eventos culturais e shows. A medida ainda alcançaria formas de associação de marca, como embaixadores e naming rights, com previsão de prazo de até 24 meses para adequação ou encerramento dos contratos existentes. (Senado Federal)
Isso pode representar uma mudança significativa para artistas que possuem contratos publicitários de longo prazo. Cantores em turnê, apresentadores, atores e criadores que construíram parte de sua estratégia comercial em torno de grandes campanhas teriam de diversificar anunciantes e buscar setores considerados menos controversos. O movimento também pode acelerar uma tendência que já existe no mercado: a valorização de marcas capazes de estabelecer relações comerciais duradouras com personalidades sem depender exclusivamente de campanhas pontuais.
Como famosos e criadores podem ser afetados?
A principal consequência econômica dependerá do texto que eventualmente for aprovado pelo Congresso e de sua regulamentação. Ainda assim, o projeto já permite visualizar alguns caminhos possíveis para o mercado de influência. Se as restrições forem mantidas, agências e empresários deverão analisar com mais cuidado não apenas o anunciante, mas também a forma de divulgação, o público alcançado e a responsabilidade contratual de cada participante da campanha.
O projeto aprovado pela comissão determina que operadores de apostas respondam também por atos de afiliados, agências, influenciadores e outros terceiros remunerados ou incentivados para promover seus serviços. Além disso, prevê mecanismos para retirar divulgações consideradas irregulares depois de notificação da autoridade competente. A proposta ainda estabelece novas sanções e cria um crime relacionado à divulgação de operador não autorizado, com possibilidade de aumento de pena quando a promoção for realizada por influenciador, atleta ou pessoa conhecida. (Senado Federal)
Para uma celebridade, portanto, a questão deixa de ser apenas quanto um contrato paga. A análise passa a envolver risco jurídico, reputacional e comercial, principalmente quando a publicidade está associada diretamente à imagem pessoal. Esse cuidado tende a ganhar ainda mais importância entre criadores que possuem público jovem, já que a fronteira entre entretenimento e publicidade pode ser menos evidente para parte da audiência.
Ao mesmo tempo, a possível redução desse mercado pode abrir espaço para outras categorias de anunciantes. Empresas de tecnologia, educação, beleza, moda, turismo, alimentação, serviços financeiros e entretenimento podem disputar o orçamento publicitário anteriormente direcionado às bets. Para influenciadores, isso pode incentivar uma profissionalização maior da carreira, com menos dependência de um único segmento e mais atenção à construção de comunidades e à reputação de longo prazo.
O que pode mudar na publicidade de celebridades daqui para frente?
A discussão sobre as bets também mostra como o mercado de influência está deixando de ser encarado apenas como uma extensão informal da publicidade tradicional. Quando uma personalidade possui milhões de seguidores, uma publicação patrocinada pode alcançar uma audiência comparável à de veículos tradicionais, e isso aumenta a preocupação regulatória sobre transparência, proteção do consumidor e responsabilidade.
O projeto em análise prevê ainda proibições relacionadas a mensagens que apresentem apostas como fonte de renda, solução financeira, lucro certo ou método garantido. Também restringe publicidade direcionada por algoritmos e determinadas estratégias de reimpacto, além de estabelecer medidas voltadas à proteção de pessoas consideradas vulneráveis. (Senado Federal) Essas regras podem afetar especialmente campanhas digitais sofisticadas, nas quais a segmentação de público é parte central da estratégia comercial.
Para o entretenimento, a consequência mais interessante pode ser a mudança na relação entre fama e publicidade. Durante anos, a presença de celebridades em campanhas ajudou marcas de apostas a transformar serviços digitais em produtos associados a estilos de vida, esportes e cultura pop. Se esse espaço for reduzido, produtores, empresários e plataformas precisarão encontrar novas formas de conectar audiência e anunciantes sem comprometer a credibilidade das personalidades envolvidas.
O próximo passo será acompanhar a tramitação do PL 2.470/2026 no Senado e eventuais mudanças no texto antes de uma decisão definitiva. Enquanto isso, artistas e influenciadores que trabalham com publicidade têm um motivo adicional para revisar contratos, cláusulas de responsabilidade e categorias de anunciantes. Mesmo que o projeto sofra alterações, o movimento indica que a relação entre apostas, celebridades e redes sociais deverá permanecer sob forte escrutínio, tornando a diversificação comercial uma estratégia cada vez mais importante para quem vive da própria imagem na internet.