IA começa a transformar o entretenimento em conteúdo descartável: o que muda para famosos e influenciadores
Bianca Lorvani
7 min de leitura
Avanço de conteúdos gerados por inteligência artificial pode baratear produções, mas também ameaça a autenticidade que sustenta a indústria do entretenimento digital.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para editar fotos, criar filtros ou acelerar tarefas de produção e passou a disputar espaço dentro do próprio entretenimento. Nos últimos dias, o debate ganhou força com a discussão sobre a chamada “slopificação” do conteúdo, expressão usada para descrever a produção em massa de materiais gerados por IA, muitas vezes baratos, repetitivos e feitos principalmente para conquistar cliques. O fenômeno chama atenção porque pode atingir justamente um dos mercados mais dependentes da atenção do público: celebridades, música, cinema, televisão e redes sociais. (UOL)
Para quem acompanha famosos, a mudança pode ser percebida de maneira bastante concreta. Vídeos, imagens, músicas e histórias envolvendo personagens conhecidos podem ser produzidos em uma velocidade muito superior à dos processos tradicionais, enquanto influenciadores ganham ferramentas capazes de acelerar roteiros, edição e criação visual. Ao mesmo tempo, surge uma dúvida importante: quando a internet estiver cheia de conteúdos produzidos artificialmente, o que fará uma celebridade, um artista ou um criador realmente se destacar?
Por que a “slopificação” pode mudar a forma como o público consome entretenimento
O conceito de “AI slop” descreve conteúdos produzidos em grande quantidade por inteligência artificial, geralmente com baixo custo e pouca preocupação com originalidade ou acabamento. A lógica é diferente daquela de uma produção audiovisual tradicional, na qual roteiro, gravação, edição, atuação e distribuição exigem tempo e profissionais especializados. Com ferramentas generativas, uma ideia pode ser transformada em vídeo, imagem ou áudio em poucos minutos, criando uma oferta praticamente ilimitada de material para redes sociais e plataformas digitais. (UOL)
Essa transformação pode ser especialmente relevante para o universo dos famosos porque personagens, franquias e tendências já possuem público estabelecido. Um personagem conhecido pode ser colocado em situações novas, uma estética pode ser reproduzida em centenas de vídeos e uma tendência envolvendo determinado artista pode ganhar inúmeras versões artificiais. A tecnologia, portanto, não precisa necessariamente criar uma celebridade do zero para movimentar audiência: ela pode simplesmente multiplicar aquilo que já é reconhecido pelo público, aumentando a velocidade com que uma propriedade intelectual é explorada.
O problema aparece quando quantidade começa a substituir qualidade. Uma pesquisa acadêmica publicada em agosto analisou produtores de vídeos virais gerados por IA na China e mostrou como alguns criadores passaram a tratar a viralização de maneira sistemática, testando formatos, utilizando múltiplas contas e transformando a produção de conteúdo em um processo cada vez mais industrializado. (Springer Nature) Para influenciadores brasileiros, essa tendência representa uma mudança importante: não basta produzir mais rapidamente, porque outros perfis também podem fazer o mesmo.
O que a inteligência artificial representa para artistas e influenciadores
A tecnologia, porém, não significa apenas uma ameaça. Para artistas e criadores de conteúdo, ferramentas de inteligência artificial podem reduzir custos e acelerar etapas que antes consumiam horas de trabalho. O próprio YouTube afirma que mais de 1 milhão de canais utilizaram diariamente ferramentas de criação baseadas em IA em dezembro de 2025, enquanto a plataforma também anunciou recursos para geração de Shorts, experimentação musical e criação a partir de comandos de texto. (blog.youtube)
Na prática, isso pode permitir que um influenciador teste mais ideias antes de decidir qual conteúdo realmente merece produção. Um cantor pode experimentar conceitos visuais, um cineasta independente pode desenvolver referências para uma cena e um criador pode estruturar diferentes versões de um roteiro antes da gravação. A diferença estará cada vez menos no simples acesso à ferramenta e mais na capacidade de utilizar a tecnologia sem eliminar a identidade que tornou aquele profissional interessante para o público.
Essa discussão também chega diretamente a Hollywood e ao mercado audiovisual. Em setembro, produtores e cineastas voltaram a discutir o uso da IA como instrumento para reduzir custos de produções, enquanto empresas do setor procuram descobrir como incorporar a tecnologia sem provocar uma ruptura completa com profissionais criativos. (Semafor) O cenário indica que a questão não será simplesmente escolher entre produção humana ou artificial, mas definir quais etapas podem ser automatizadas e quais continuam dependendo de interpretação, experiência, personalidade e responsabilidade humana.
O que pode acontecer com famosos e redes sociais nos próximos meses
Uma das principais mudanças pode ocorrer na relação entre celebridades e autenticidade. Durante anos, parte do valor de um influenciador esteve justamente na sensação de proximidade: o público acompanha sua rotina, reconhece sua voz, identifica seus trejeitos e percebe quando determinado conteúdo parece genuíno. Com a multiplicação de materiais sintéticos, essa percepção tende a ficar mais difícil, principalmente quando imagens, vozes e vídeos artificiais se aproximam cada vez mais da aparência de produções reais.
As próprias plataformas já demonstram preocupação com esse cenário. O YouTube afirma que conteúdos realistas alterados ou sintetizados precisam ser identificados em determinadas circunstâncias e também diz estar desenvolvendo mecanismos para ajudar criadores a administrar o uso de sua imagem em conteúdos produzidos por IA. A empresa ainda reconhece o problema do chamado “AI slop” e afirma trabalhar para reduzir a circulação de materiais repetitivos e de baixa qualidade. (blog.youtube)
Para celebridades, isso cria uma nova dimensão de gerenciamento de reputação. Um vídeo artificialmente produzido com a aparência de um ator, cantor ou influenciador pode alcançar milhares de pessoas antes que o público perceba que aquilo não aconteceu. Para os próprios criadores, por outro lado, a inteligência artificial pode se tornar uma vantagem competitiva quando usada como apoio à criatividade, e não como substituta completa da personalidade. O diferencial tende a migrar para aquilo que a tecnologia tem mais dificuldade de reproduzir: experiências reais, opiniões próprias, relacionamentos com fãs e acontecimentos que tenham contexto.
Nos próximos meses, portanto, o entretenimento deve continuar avançando para uma convivência cada vez maior entre criação humana e inteligência artificial. O debate sobre o uso da tecnologia não ficará restrito aos estúdios de cinema ou às grandes plataformas, porque também atingirá influenciadores independentes, músicos, produtores de vídeo e até pequenos perfis que dependem das redes sociais para construir audiência. O desafio será evitar que a facilidade de produzir conteúdo transforme os feeds em ambientes saturados de materiais indistinguíveis.
Para quem acompanha famosos, isso pode tornar a autenticidade um ativo ainda mais valioso. Em um cenário no qual qualquer pessoa consegue gerar uma imagem impressionante ou um vídeo aparentemente profissional, aquilo que aconteceu de verdade, quem estava envolvido e por que aquela história importa podem ganhar peso maior na decisão do público de assistir, compartilhar ou seguir um perfil. A tecnologia deve continuar barateando a produção, mas a atenção continuará sendo humana — e é justamente ela que artistas e influenciadores precisarão conquistar.