Marcello José Abbud

Por que os trabalhadores de coleta e triagem ainda estão invisíveis nas políticas de saúde?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Marcello José Abbud

Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, chama atenção para uma dimensão da gestão de resíduos sólidos que raramente aparece nos debates sobre infraestrutura e tecnologia ambiental: o impacto sobre a saúde dos trabalhadores que coletam, transportam e realizam a triagem dos resíduos gerados diariamente nas cidades brasileiras. 

Garis, motoristas de caminhão de coleta, trabalhadores de usinas de triagem e catadores de materiais recicláveis estão entre os profissionais com maior exposição a riscos físicos, químicos e biológicos no ambiente de trabalho urbano, em uma ocupação que é simultaneamente essencial para o funcionamento das cidades e historicamente invisível nas políticas de saúde do trabalhador. Neste artigo, apresentamos os principais riscos dessa categoria profissional e as medidas que podem transformar essa realidade. 

Os riscos físicos e ergonômicos da coleta e da triagem de resíduos

O trabalho de coleta domiciliar de resíduos envolve esforço físico intenso e repetitivo, com levantamento e carregamento de volumes pesados em posturas inadequadas ao longo de jornadas extensas em diferentes condições climáticas. Lesões musculoesqueléticas, especialmente na coluna vertebral, ombros e membros inferiores, são as ocorrências mais comuns entre trabalhadores de coleta, com taxas de afastamento por problemas ortopédicos significativamente superiores às de outras categorias de trabalhadores urbanos. O risco de atropelamento durante a coleta em vias com tráfego intenso representa outra causa relevante de acidentes graves nessa categoria profissional.

Conforme aponta Marcello José Abbud, nas usinas de triagem, o trabalho manual de separação de materiais em esteiras transportadoras expõe os trabalhadores a riscos de cortes por vidros, metais e objetos pontiagudos descartados junto aos recicláveis, além de esforço repetitivo que gera lesões por uso excessivo nas mãos, pulsos e ombros ao longo do tempo. Paralelamente, a velocidade das esteiras e a pressão por produtividade em muitas instalações agravam esses riscos, tornando as usinas de triagem um ambiente de trabalho com perfil de risco físico que demanda atenção específica das políticas de saúde ocupacional.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

A exposição a agentes biológicos e químicos

Além dos riscos físicos, os trabalhadores de coleta e triagem estão expostos a agentes biológicos e químicos presentes nos resíduos manuseados diariamente. Resíduos de serviços de saúde descartados indevidamente no lixo doméstico comum, como seringas, curativos e medicamentos vencidos, representam risco de contaminação por patógenos transmitidos por via percutânea ou por contato com mucosas. Adicionalmente, a exposição a bioaerossóis gerados pela decomposição de resíduos orgânicos é associada a problemas respiratórios crônicos em trabalhadores de longa data na área de coleta e triagem.

Tal como apresenta o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, a exposição a substâncias químicas presentes em resíduos industriais e domésticos descartados sem identificação adequada é um risco de difícil controle nos sistemas convencionais de coleta, especialmente para os catadores de materiais recicláveis que trabalham sem equipamentos de proteção individual adequados. Agrava esse cenário o fato de que a falta de informação sobre a composição dos resíduos manuseados é um dos principais obstáculos para a adoção de medidas de proteção eficazes nesse segmento da força de trabalho ambiental.

Políticas de saúde ocupacional e condições de trabalho dignas

A melhoria das condições de saúde e segurança dos trabalhadores de coleta e triagem exige políticas específicas que reconheçam as particularidades dos riscos dessa categoria profissional. Programas de vacinação obrigatória, fornecimento regular de equipamentos de proteção individual adequados, treinamento contínuo sobre riscos e procedimentos seguros e monitoramento periódico da saúde dos trabalhadores são medidas básicas que ainda não são universalmente garantidas nos contratos de prestação de serviços de coleta nos municípios brasileiros.

Marcello José Abbud resume que a inclusão de critérios de saúde e segurança do trabalho como requisitos obrigatórios nos contratos e concessões de serviços de coleta e tratamento de resíduos é a medida regulatória mais direta para garantir que os avanços na infraestrutura ambiental das cidades sejam acompanhados por melhorias reais nas condições de trabalho dos profissionais que tornam essa infraestrutura possível. Dessa forma, cidades que tratam a saúde de seus trabalhadores de resíduos como prioridade de gestão demonstram que é possível avançar simultaneamente na qualidade ambiental e na qualidade de vida de quem sustenta esse sistema.

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