Estudo revela 18 influenciadores fictícios criados por IA espalhando desinformação política no Brasil

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Levantamento aponta que quase 80% desses perfis artificiais divulgam conteúdo enganoso contra autoridades, e a maioria não avisa o público sobre o uso de inteligência artificial.

A discussão sobre os limites entre conteúdo real e conteúdo sintético ganhou um capítulo preocupante no Brasil. Um levantamento conduzido pelo Observatório de IA nas Eleições, em parceria com o Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos dezoito perfis de influenciadores digitais totalmente artificiais em atividade entre janeiro de 2025 e abril de 2026. O estudo, divulgado por veículos como CNN Brasil e Revista Fórum, mostra que esses personagens não são apenas ferramentas de marketing, mas peças ativas no debate político nacional.

De acordo com os dados apurados, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são gerados por inteligência artificial, mesmo havendo regras específicas estabelecidas pela Justiça Eleitoral para esse tipo de sinalização. Mais grave ainda é o dado de que 78% dos perfis analisados, o equivalente a quatorze dos dezoito casos mapeados, disseminam informações falsas sobre políticos e instituições democráticas, com discursos descritos pelos pesquisadores como simplistas, preconceituosos e por vezes extremistas.

Um dos exemplos mais emblemáticos levantados pela pesquisa é o da personagem conhecida como “Dona Maria”, um avatar que simula ser uma mulher negra e idosa e que já acumula mais de 400 vídeos publicados desde que foi identificado pela primeira vez, em agosto de 2025. Os conteúdos atribuídos a essa personagem miram principalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso, questionando políticas públicas como o Bolsa Família e o funcionamento das instituições.

O fenômeno não se limita a um único lado do espectro político. Pesquisadores também identificaram o personagem “Seu Zé da Feira”, ambientado em uma feira de rua e usado para criticar partidos de direita e o chamado centrão, além de uma versão adaptada da própria “Dona Maria” criada por perfis governistas, mantendo as mesmas características físicas do avatar original, mas com discurso favorável ao governo. Essa disputa simétrica mostra como diferentes grupos políticos passaram a recorrer à mesma estratégia de personagens sintéticos para tentar moldar a opinião pública nas redes sociais.

A repercussão do caso já teve desdobramentos concretos. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, acionou o Tribunal Superior Eleitoral pedindo a suspensão de contas ligadas ao perfil da “Dona Maria”, alegando desinformação e propaganda eleitoral irregular. O episódio ficou conhecido entre pesquisadores como o “efeito Dona Maria”, justamente pela dimensão que a repercussão do personagem alcançou e pelo precedente que pode abrir para outros casos semelhantes na Justiça Eleitoral.

Segundo o levantamento, as plataformas preferidas para a circulação desses avatares são o TikTok e o Instagram, cada uma com seis casos identificados, seguidas pelo YouTube, com três registros, e por X, Kwai e Facebook, que completam o mapeamento. Apenas sete dos dezoito perfis analisados apresentavam algum tipo de indicação de que o conteúdo era gerado por inteligência artificial, e mesmo assim de forma pouco perceptível, seja por marcadores automáticos das próprias redes, seja por marcas d’água discretas das ferramentas de criação usadas na produção das imagens e dos vídeos.

Esse cenário reacende um debate mais amplo sobre a regulação da inteligência artificial generativa em contextos eleitorais, um tema que já vinha sendo discutido desde relatos anteriores sobre o risco de IAs inaugurarem uma nova modalidade de desinformação política no país. A diferença central em relação a outros tipos de conteúdo manipulado é que, no caso desses avatares, não existe uma pessoa real tendo falas distorcidas ou atitudes manipuladas, mas sim uma identidade inteiramente fabricada, criada para simular espontaneidade, interação genuína e participação direta no debate público de forma contínua.

O caso reforça um alerta que especialistas em tecnologia já vinham fazendo há algum tempo, o de que a linha entre influenciador humano e personagem artificial está cada vez mais difícil de identificar a olho nu, especialmente para o público que consome conteúdo de forma rápida nas redes sociais. Com a proximidade das eleições de outubro, a tendência é que o tema ganhe ainda mais atenção de órgãos reguladores, partidos e das próprias plataformas digitais, que enfrentam pressão crescente para aprimorar mecanismos de identificação e rotulagem de conteúdos gerados por inteligência artificial.

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