Influenciadores, artistas e ídolos do esporte se filiam a partidos e apostam na popularidade para conquistar votos nas eleições de outubro.
A cada ano eleitoral, a política brasileira ganha um capítulo que lembra mais os bastidores de um reality show do que uma disputa institucional, e 2026 não é exceção. Nos últimos meses, uma leva de celebridades oficializou filiações partidárias, e algumas já confirmaram pré-candidaturas para os cargos que serão disputados em outubro. A lista reúne nomes vindos do mundo da música, do futebol, dos realities e até da literatura, todos apostando no reconhecimento público como capital eleitoral.
Entre os destaques está a influenciadora fitness Gracyanne Barbosa, que se filiou ao Republicanos em fevereiro e deve disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A socialite Val Marchiori seguiu o mesmo caminho, anunciando a filiação à mesma legenda no fim de março e confirmando a intenção de concorrer a uma vaga de deputada federal por São Paulo. Segundo declarações da própria Val em suas redes sociais, a luta contra o câncer foi um dos fatores que a motivaram a entrar na política, um argumento pessoal que ela tem repetido em suas aparições públicas.
O mundo do futebol também está bem representado nessa corrida. O ex-atacante Edmundo, ídolo de Palmeiras e Vasco, filiou-se ao PSDB fluminense e afirmou que pretende representar a torcida vascaína em sua trajetória política, ainda sem definir o cargo pretendido. Já o ex-atacante Luís Fabiano, ídolo do São Paulo e da Seleção Brasileira, anunciou sua entrada no MDB paulista em cerimônia que contou com a presença do prefeito Ricardo Nunes e do presidente nacional da legenda, Baleia Rossi. O cantor sertanejo Sérgio Reis, que já foi deputado federal entre 2014 e o mandato seguinte, também tenta o retorno à vida pública, agora mirando uma vaga no Senado por São Paulo pelo Democracia Cristã.
A televisão e os realities completam esse cenário plural. Silvia Abravanel, apresentadora e filha do empresário Silvio Santos, filiou-se ao PSD no fim de março, no mesmo ato em que seu marido, o cantor Gustavo Moura, também se filiou à sigla. Rico Melquiades, vencedor da edição de 2021 do reality A Fazenda, entrou para o PSDB, enquanto Matteus Amaral, vice-campeão do BBB daquele mesmo ano, escolheu o Progressistas para disputar uma vaga como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, apostando na ligação com o trabalho rural como parte central de sua imagem de candidato.
Nem todas as filiações, porém, seguiram sem percalços. O ator Dado Dolabella chegou a se filiar ao MDB, mas deixou o partido poucos dias depois, em meio à repercussão negativa gerada por casos anteriores de violência doméstica pelos quais já foi investigado. O episódio mostra que a exposição midiática, que costuma ser vista como vantagem eleitoral, também pode se transformar rapidamente em desgaste para os partidos que apostam em nomes populares sem avaliar com cuidado o histórico de cada um.
Outro nome que chamou atenção pela ambição do projeto foi o do psiquiatra e escritor Augusto Cury, autor de obras como “O Homem Mais Inteligente da História” e “O Vendedor de Sonhos”. Cury se filiou ao partido Avante e se colocou como pré-candidato à Presidência da República, apresentando propostas como a criação de dez mil clubes de empreendedorismo pelo país e programas voltados à qualificação de policiais e à redução da insegurança alimentar. É um caso que foge um pouco do padrão de outros famosos candidatos, já que o autor não vem do entretenimento popular tradicional, mas carrega um público fiel construído ao longo de décadas de livros best-sellers.
O fenômeno também tem uma explicação estrutural: nas eleições proporcionais, candidatos muito votados funcionam como puxadores de legenda, ajudando a eleger colegas de partido menos conhecidos. Por isso, siglas de diferentes espectros políticos disputam entre si a filiação de rostos populares, na aposta de que o engajamento nas redes sociais se converta em votos nas urnas. A definição final dos cargos que cada uma dessas celebridades vai disputar depende das convenções partidárias, previstas para julho e agosto, com os registros de candidatura devendo ser protocolados na Justiça Eleitoral até o mês seguinte.
Até lá, é bastante provável que a lista de famosos candidatos continue crescendo, já que o calendário eleitoral de 2026 ainda reserva algumas semanas de movimentação partidária antes do fechamento oficial das chapas. O que já fica claro, no entanto, é que a fronteira entre entretenimento e política segue cada vez mais tênue no Brasil, com legendas de diferentes tamanhos e ideologias recorrendo à mesma estratégia de atrair holofotes para tentar garantir cadeiras nas assembleias, na Câmara e no Senado.
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