Empresas de tecnologia vêm contratando cada vez mais, pensando em fuso horário, não em endereço de escritório: um time no Brasil cobre o período da manhã, outro na Índia assume à tarde, um terceiro em Singapura fecha o ciclo durante a madrugada brasileira. Rolando Bonaccorsi, diretor de operações da Vert Analytics, apresenta que esse modelo, conhecido como follow the sun, promete algo sedutor no papel: cobertura de vinte e quatro horas sem nunca precisar de plantão noturno forçado para ninguém.
Na prática, porém, montar essa estrutura corretamente exige muito mais do que contratar três equipes em três fusos diferentes e torcer para que tudo funcione encaixado.
Contratar por fuso horário, não por escritório
O apelo do modelo é direto: em vez de uma única equipe cobrindo vinte e quatro horas por meio de escalas de plantão exaustivas, cada região trabalha dentro do próprio horário comercial, entregando o trabalho para a próxima região quando o expediente termina.
Isso reduz o desgaste que plantões noturnos tradicionalmente impõem a uma mesma equipe e amplia o alcance de talento disponível, já que a empresa passa a recrutar considerando cobertura de horário, não apenas proximidade geográfica de um escritório físico central.
Cobertura contínua não é o mesmo que continuidade de contexto
O erro mais comum é medir sucesso do modelo apenas pela ausência de lacunas na cobertura, sem prestar atenção ao que realmente é transferido de uma equipe para a outra a cada troca de turno ao longo do dia.
Rolando Bonaccorsi aponta que uma operação pode ter as vinte e quatro horas tecnicamente cobertas e, ainda assim, perder qualidade real, se cada equipe recomeça o raciocínio do zero, sem herdar o contexto de decisões tomadas pelo turno anterior. Cobertura contínua sem continuidade de contexto produz um serviço tecnicamente disponível, mas efetivamente fragmentado.
O ritual de transferência que faz ou quebra o modelo
A diferença entre um follow-the-sun bem executado e um mal executado geralmente está em um detalhe pouco glamouroso: como cada equipe registra e transmite o que estava em andamento antes de encerrar o próprio turno.
Um formulário padronizado de transferência, respondendo a perguntas simples como o que foi feito, o que ficou pendente e o que exige atenção imediata da próxima equipe, evita que informação crítica se perca na virada de turno. Rolando Bonaccorsi considera esse ritual, por mais burocrático que pareça à primeira vista, o verdadeiro fator que separa operações que escalam bem globalmente daquelas que apenas parecem escalar no papel organizacional.
O custo de montar essa estrutura sem esse cuidado
Empresas que adotam follow-the-sun apenas pela redução de custo com mão de obra em diferentes regiões, sem investir no processo de transferência entre equipes, frequentemente descobrem o problema tarde: incidentes que se arrastam por múltiplos turnos porque cada equipe reconstrói o entendimento do zero.
Em sua experiência como executivo de operações e delivery em tecnologia, Rolando Bonaccorsi resume o ponto central: o valor do follow-the-sun não está em ter gente acordada o tempo todo em algum lugar do mundo, está em garantir que o conhecimento sobre cada problema em aberto atravesse fusos horários com a mesma qualidade com que atravessaria a mesa de um único escritório.

